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"Comecei a me dedicar à literatura por vingança"

, em 17/05/2014, às 14:51 (atualizado em 24/05/2014, às 13:29)
Foto: Guilherme Pupo

Rogério Pereira, escritor e jornalista curitibano, é um dos convidados deste domingo (18) da 14ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, e estará no Café Filosófico às 14h no Auditório Meira Júnior.

É sob os comandos dele que vive há 14 anos o jornal Rascunho, publicação com resenhas literárias escritas por cerca de 50 escritores colaboradores e com 5 mil exemplares impressos mensais. Além disso, ele é cronista do site coletivo Vida Breve e lançou recentemente seu primeiro romance, Na escuridão, amanhã, que demorou uma década para ser finalizado.

Na entrevista concedida ao Varal Diverso, Rogério conta sobre a dificuldade de manter o Rascunho por conta própria e lembra que a raiva da situação dos pais, que foram à escola por menos de dois anos, foi a grande alavanca que o transformou em escritor.

Confira a programação completa da Feira do Livro neste domingo (18/05)

Rogério, o jornal Rascunho existe há 14 anos. Como você faz para manter esse projeto até hoje? As assinaturas sustentam ou há algum patrocínio?
Vários fatores são fundamentais para a sobrevivência do Rascunho. O mais importante é a dedicação dos cerca de 50 colaboradores a cada edição. Nenhum colaborador recebe para escrever ou ilustrar. Isso reduz muito os custos mensais. O restante — impressão, distribuição etc. — é custeado pelos assinantes e anunciantes. Normalmente, a conta não fecha. E, invariavelmente, eu faço investimentos próprios no Rascunho. É muito complicado manter o equilíbrio financeiro. Em 2014, após 14 anos, resolvi inscrever o projeto na Lei Rouanet. Portanto, estamos tendo um ano um pouco menos apertado. Mas, mesmo assim, é bastante complicado manter um jornal de literatura num país onde a leitura ainda é algo secundário, sem relevância social.

Em relação aos colaboradores, como eles participam do jornal e quantos são hoje em dia? São resenhas exclusivas?
Somos um exército. São cerca de 50 colaboradores (colunistas, resenhistas, ilustradores) a cada edição. A maioria dos textos é exclusiva, com exceção das colunas do José Castello e do Raimundo Carrero.

Você nunca pensou em parar com o impresso para manter apenas o on-line?
Penso nisso há um bom tempo. No entanto, tenho DNA de traça. Trabalho em jornal desde os 13 anos, gosto muito da versão impressa. E o Rascunho tem muitos leitores com o perfil para a versão impressa. Só optarei pela versão 100% on-line quando considerar impossível financeiramente manter a impressa.

Percebo no seu estilo quando escreve crônicas, frases rápidas e uma densidade emocionante. Como foi o processo pra você assumir a sua identidade literária?
Não sei se tenho um estilo de escrever. Acho que encontrei a minha maneira de escrever. Isso só foi possível com o tempo, escrevendo e lendo muitíssimo. Consigo escrever da maneira possível, da maneira que considero adequada à minha literatura, àquilo que gostaria de produzir. Encontrar esta forma levou tempo e muito trabalho. Estreei em livro somente aos 40 anos, em 2013. O trajeto foi de muitas tentativas, erros e poucos acertos. Continuarei tentando, mas com alguma clareza de como pretendo construir meus livros.

Como você descreveria o papel das crônicas no cenário da literatura atual? 
A crônica sempre foi muito importante, principalmente para fortalecer o processo de formação de leitores. E é um gênero que se mantém com muita vitalidade na imprensa (apesar de que muitos textos tidos como crônica não o são) e na internet. É também por onde alguns escritores iniciam suas experiências de escrita. A crônica, com suas características, é imprescindível na vida de qualquer leitor.

Você tem escrito bastante sobre "a mãe". São histórias da sua vida? Escrever é um tipo de "terapia" pra você?
Escrever é uma forma de viver. De encarar a vida. Escrevo sempre a partir das minhas experiências. No entanto, não é a minha vida. É um pedaço da minha vida recriado a partir da literatura, a partir dos livros que li. Mas não tem nada a ver com salvação, redenção, “terapia” ou coisa parecida. Literatura é uma forma de arte que o autor entrega ao leitor. E a partir desta entrega um assombro se produz. O leitor precisa ser tirado de uma zona de conforto. É o que eu busco quando escrevo: tirar o leitor da zona de conforto em que se encontra.

Você costuma ter a sensação de que seu texto nunca está bom o bastante? 
Sinto isso a cada linha, a cada parágrafo, a cada texto. É a sensação de fracasso que me move em busca de um texto que me satisfaça. A insatisfação é permanente. Nunca se escreve o que se gostaria, mas apenas o possível. E o possível normalmente gera insatisfação. E assim sigo em frente. Até o fim!

É a sua primeira vez na Feira do Livro de Ribeirão?
Não. Curiosamente, estive na Feira na sua primeira edição. Vim como jornalista convidado para acompanhar o evento. Depois, estive ao lado de Eliane Brum, em 2011. Gosto muito da cidade e da Feira, uma das mais importantes do país.

O que você acha que é capaz de formar um bom leitor? Vontade própria, oportunidades, políticas públicas adequadas?
A formação de um leitor passa por vários caminhos. Infelizmente, no Brasil tudo é muito tortuoso, delicado, frágil. É uma discussão para um seminário, para a vida toda. Mas considero que agora é fundamental centrar todas as forças na formação do chamado professor-leitor. É ele o grande responsável pela formação dos novos leitores, principalmente nas escolas públicos. As famílias brasileiras não são leitoras. Então, a escola é fundamental nesta formação. Com isso, conseguiremos formar leitores, que formarão famílias leitoras, que ajudarão a formar filhos leitores, etc. É um trabalho de longuíssimo prazo. Mas que precisa ser intensificado. Paralelo a isso, toda e qualquer ação de leitura (por menor que seja) é importante, independentemente de ela ser da iniciativa pública ou da privada. É preciso fortalecer a cada dia um espaço propício à leitura, colocar a literatura no dia a dia das pessoas. Dar à leitura um valor social importante.

Na escuridão, amanhã é o seu primeiro romance, não é? Como esse livro começou a ser escrito? Foi uma necessidade de expressão, intuição, mercado?
Levei dez anos escrevendo Na escuridão, amanhã. Até a publicação, são quase 14 anos. É claro que não fiquei o tempo todo debruçado sobre o livro. O longo tempo de gestação significa excessivo rigor, desmedida autocrítica e certa incapacidade de encontrar o ritmo adequado a uma história fragmentada sobre retirantes. A gênese do livro é um tanto inusitada. Numa conversa com o escritor Luiz Ruffato, ele me disse: “Estes teus textos formam um conjunto muito interessante”. Ele se referia a narrativas esparsas que eu publicava no Rascunho. De tanto ele me “pressionar”, resolvi encarar a aventura de escrever um romance. Aí, levei mais cerca de três anos retrabalhando os textos publicados e escrevendo novas partes, para amarrar tudo numa breve narrativa. Ao final, consegui parir (não sem muita dor) Na escuridão, amanhã.

Você considera seu texto pessimista?
Não sei dizer. Deixo isso para o leitor.

Você consegue dizer o que, na sua vida, te fez gostar das palavras?
Sei exatamente por que comecei a ler e a me dedicar à literatura: por vingança. É a minha forma de me vingar do mundo em que meus pais não conseguiram ir à sala de aula por um período maior que dois anos. E, por outro lado, uma busca cega por uma janela que mostrasse uma mínima réstia de luz diante da escuridão que envolvia minha família, onde a palavra escrita era nada, um silêncio, um vazio, uma herança inexistente.

SERVIÇO

Salão de Ideias: Rogério Pereira
18/05, às 14h
Theatro Pedro II (Auditório Meira Júnior)
Rua Álvares Cabral, 370 – Centro
Gratuito

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