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As dores e as delícias da ilustração

As dores e as delícias da ilustração
, em 02/01/2015, às 16:13 (atualizado em 22/04/2015, às 00:29)

Por Francine Micheli
Fotos e ilustrações: Acervo pessoal / Paola Saliby

Os traços lembram ilustrações francesas antigas. As cores nos levam para aquela época em que os livros de criança eram nossos melhores amigos. A ilustradora Paola Saliby, natural de Ribeirão Preto e, atualmente sediada em São Paulo, sabe que qualquer escolha profissional tem lá suas dificuldades, mas se deparou com a falta de valorização e obstáculos quando decidiu largar o trabalho de estilista em uma grande marca para se dedicar ao lápis e papel.

Na entrevista que ela concedeu ao Varal Diverso, a paixão pelo trabalho fica evidente, assim como os planos de desenvolver seu próprio livro. Aos 27 anos, ela coleciona elogios e ilustrações lindas publicadas em revistas como Vida Simples, Bons Fluidos, ColorsCasa e Jardim, além de trabalhos específicos para marcas e empresas.

Para quem gosta de ilustração ou pretende seguir a carreira, tá aí uma bela inspiração!

Como surgiu a paixão pelo desenho e há quanto tempo ela virou profissão?
Me apaixonei por desenho e ilustração na época da faculdade. Me formei em moda na Faculdade Santa Marcelina e lá a gente desenhava muito. Na época, meu traço não era nada bom e foi um pouco sofrido até conseguir pegar o jeito. Aos poucos eu comecei a me sentir mais e mais envolvida com o desenho e meu traço foi evoluindo.

Assim que me formei, consegui uma vaga de emprego em uma grande marca. Trabalhava como assistente de estilo, mas estava muito infeliz. Ao mesmo tempo, comecei um curso de desenho na Quanta Academia de Artes e percebi que eu queria mesmo era ser ilustradora. O problema é que eu não sabia por onde começar.

Depois de muitas dúvidas e inseguranças, larguei minha vida em São Paulo e voltei para a casa da minha mãe, em Ribeirão Preto, onde passei um ano estudando e correndo atrás de trabalho, recebendo muitas respostas negativas até que aos poucos as oportunidades foram aparecendo.

Voltei para São Paulo e a coisas começaram a melhorar. Não me lembro exatamente quando me tornei profissional pois tudo aconteceu bem aos poucos. Mesmo depois dos primeiros trabalhos eu ainda não me considerava uma ilustradora e passei um bom tempo preenchendo “estilista” no campo da profissão. Com o tempo fui me sentindo segura para dizer que o que era quando me perguntavam o que eu fazia para viver. 

E seu estilo, dá pra definir?
Meu trabalho se define pelas linhas simples e estilizadas. Me inspiro muito nos ilustradores franceses e também no design das décadas de 1940 e 1950.

O que te faz suspirar na hora da inspiração?
É meio bobo dizer, mas eu me inspiro em coisas simples. Estou na fase de desenhar plantas e cães, por exemplo, duas coisas que eu adoro. Me inspiro em meus amigos, minha família, minha casa e em coisas cotidianas que observo por aí. 

A moda também exerce uma grande influência sobre o meu trabalho. Por ter começado a ilustrar durante a faculdade, tomei gosto por anatomia e adoro desenhar figuras femininas.

O que desenhar representa pra você hoje?
Eu nem imagino mais a minha vida sem meus pincéis e minhas tintas. Acho que isso responde sua pergunta, né? :)

Deixar a sua cidade natal para encarar o mercado não pareceu nada fácil, né?
Me mudar para São Paulo (em 2007) para estudar foi incrível e eu logo me adaptei. Me foquei nos estudos, fiz amizades e aproveitei o lado cultural da cidade. A transição aconteceu de forma natural, eu estava tão envolvida com a faculdade, os amigos e as novidades que não tive tempo de sentir o peso da mudança.

Quando voltei pela segunda vez a pressão foi maior, pois eu sabia que não poderia falhar. As responsabilidades se tornaram muito maiores. Tive medo, foi um período difícil, mas felizmente as coisas começaram a dar certo.

Encarar o mercado é difícil até hoje. No Brasil, o ilustrador ainda não é um profissional devidamente valorizado. Muitas pessoas acreditam que desenhar é tão divertido que ninguém deveria cobrar por isso. Isso precisa mudar! O desenho é nossa profissão, com ele pagamos nossas contas e, como todo trabalho, nem sempre é divertido. 

Que trabalhos você considera mais importantes na sua carreira?
Recentemente fiz um trabalho para a marca infantil Green by Missako, que foi muito bacana. Ilustrei dois jogos de cartas e foi incrível ver meu trabalho virar produto. Além disso, acho muito divertido trabalhar para o público infantil.

Os retratos por encomenda são sempre muito especiais. É muito gratificante ver o sorriso das pessoas quando ganham um retrato de presente dos amigos ou namorado, ou imaginar aquele retrato de família que eu fiz, pendurado na parede da sala.

Quais são os mocinhos e os vilões da sua inspiração?
Ambiente bagunçado, prazos apertados e clientes desorganizados são os grandes vilões. 

O trabalho flui muito melhor quando o cliente confia em você e te dá liberdade para criar. Além disso, uma boa música, uma xícara de chá ou um chocolate são essenciais.

O processo criativo é pessoal e varia muito de pessoa para pessoa. Como é o seu?
Sou bastante disciplinada mas nem sempre dá tempo de seguir todas as etapas do processo de criação. Na maioria das vezes, o cliente envia um briefing detalhado e o processo acaba sendo mais rápido. Quando o cliente me dá liberdade para criar algo do zero, quando o prazo permite ou em meus projetos pessoais, gosto de começar pesquisando referências de formas e cores. Costumo criar pastas com essas referências e depois começo a experimentar e rabiscar.

Eu gosto de rotina, acordo cedo e já sei tudo o que preciso fazer durante o dia. O problema é que o trabalho de ilustração é um pouco imprevisível e acidentes podem acontecer, atrapalhando todo o processo. Já tive que refazer uma ilustração inteira depois que um copo com água suja de tinta caiu em cima do papel!

Como é a história do cachorrinho que vai virar livro?
Quando eu tinha 8 anos, escrevi e ilustrei a história de um cachorrinho. Minha mãe gostou tanto que guardou a história dentro de uma pasta. O tempo foi passando e ela sempre se lembrava daquilo com carinho, dizia que aquela história deveria virar um livro. Pra ser sincera, eu nunca imaginei que fosse me tornar uma ilustradora. Mas ela tem aquela intuição incrível de mãe, sabe? No início desse ano ela encontrou a historinha e me deu. Agora pretendo levar a sério o seu desejo de transformar esse projeto em livro

Faz uma playlist pra gente com 10 músicas inspiradoras na hora de desenhar?

Playlist Paola Salybi by ESC Conteúdo Editorial on Grooveshark

  1. Ella Fitzgerald and Louis Armstrong – Let’s Call the Whole Thing Off
  2. Django Reinhardt – Nagasaki
  3. Johnny Cash – Big River
  4. Frank Sinatra – Angel Eyes
  5. Bill Monroe – Wayfaring Stranger
  6. Radiohead – House Of Cards
  7. Toe – Kodoku no hatsumei
  8. Feist – Undiscovered First
  9. Laura Marling – The Muse
  10. Massive Attack – Splitting The Atom (feat. Horace Andy)

Para conhecer mais a Paola Saliby e seu trabalho, acesse o site dela.

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