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A garota das corujas

publicado em: 03/05/2014 - 22:55
atualizado em: 05/05/2014 - 20:42

A garota das corujas
Foto: Fran Micheli

Se sua rotina inclui cruzar as ruas de Ribeirão Preto, você provavelmente já notou corujas coloridas disfarçando a feiura de alguns muros da cidade. Elas começaram a surgir em 2012, imensas e com certa vontade de desafiar a polícia e os baldes de tinta que ainda insistem em apagá-las.

As corujas são, na verdade, um personagem. Chama-se Corujex e é obra da imaginação e do talento de Lola Cauchick, grafiteira que espalha seus traços pela cidade desde 2005. Integrante do crew Vixe — coletivo de grafiteiros de Ribeirão que conta também com Lelin, Pink e Dida — Lola diz que deve a aptidão artística a sua avó, com quem morou durante a infância em uma casa de Cohab. “Ela (avó) não tinha um ateliê, então pintava na sala com as telas jogadas no chão ou no quintal mesmo. E ficava olhando com meu irmão e depois de um tempo a gente colocava a mão na massa. Aí tinha cachorro que corria e passava em cima das telas, era uma bagunça, mas muito divertido.”

Além de artista de rua, Lola é também tatuadora e trabalha com o marido Lelin no estúdio do casal, o Judá Tattoo. Até hoje, a menina das corujas nunca frequentou um curso regular de artes e se orgulha de suas criações. Além da coruja, outros animais já nasceram das mãos dela. Para ver o trabalho da Lola, é só andar pela cidade e prestar uma atenção extra às cores que já não passam tão despercebidas pelos nossos olhos apressados.

Leia na íntegra a entrevista que Lola concedeu ao Varal Diverso:

Por que você escolheu a coruja como marca registrada?
Eu ainda desenho os outros animais, mas a coruja tem uma história engraçada. Quando a pintei pela primeira vez teve gente que achou bem estranho e disse que era mau agouro. Aí fui pro Chile e tinha umas latas de válvula bem dura pra gente usar, então tive que fazer um desenho simples pra dar certo com o tipo de material que a gente tinha pra pintar. Fui mexendo nela e aperfeiçoando, e nasceu a Corujex que pinto hoje nas ruas.

Hoje, o graffiti e a intervenção urbana ainda não são compreendidos por grande parte da população. Ainda acontece de chamarem seu trabalho de “pichação” e apagarem um muro desenhado?
Ao meu ver, pichação e graffiti são arte. Existe quem se dedique à tipografia do picho e leve isso bem a sério, mas a população não gosta mesmo. Já o graffiti tá na TV como uma coisa boa pra ser bem aceita, e agora já passa até em novela. Mesmo assim tem gente que não gosta, porque eu acho que não gosta de arte nenhuma. Aí apaga mesmo, xinga a gente na rua, mas agora é cada vez mais raro.

Você já participou de eventos artísticos no Chile e no Equador. O que você fez por lá? Conheceu novas referências? Como foi?
Nesses dois países fui a convite de instituições artísticas para participar de murais e pintar com artistas de várias partes do mundo. Conheci sim novas referências e fiquei muito feliz de poder deixar minha arte em outros países, também por saber que existem artistas como eu que viajam horas de avião, ônibus e enfrentam uma série de obstáculos para somente pintar.

Você é uma das poucas mulheres envolvidas com arte urbana. Tem alguma diferença pra você atuar num ambiente dominado pelos homens?
As mulheres não são poucas só no graffiti, nós somos minoria na arte. Eu não sei porque isso acontece, mas com certeza não é bom.

A tatuagem te levou para o graffiti ou foi o contrário?
Foi a tatuagem que me levou para o graffiti. Na verdade, eu era só body piercer, em 2004, quando fui trabalhar com o Ton. A loja dele era um lugar muito rico pra quem ama arte. Ton é o mais antigo grafiteiro de Ribeirão Preto, hoje não vive mais aqui, mas ele é tatuador e foi lá onde conheci meu marido Lelin. Comecei a namorar e a logo pintar junto com ele, já tinha muita familiaridade com as cores, desenhos e tintas, então foi tudo muito natural.

Quais as suas referências nacionais e internacionais no graffiti?
Minha referência é minha avó, eu aprendi muito sobre as cores com ela.

Sua família aceitou numa boa quando você disse que queria ser artista de rua?
Minha família achou ótimo!

Acompanhe o trabalho de Lola:
Site oficial: http://www.lolacauchick.com/
Fan page: https://www.facebook.com/corujex

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