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Dark Writer: quem está por trás desta máscara?

Publicado em: 25/09/2014

Por Gabriel Castaldini
Fotos: Divulgação

Tudo teve início em 2010, ainda no Orkut, quando o misterioso escritor que guarda sua identidade a sete ou mais chaves — não há quem saiba se é homem ou mulher, muito menos sua idade ou de onde veio — pesquisava por pessoas que gostavam de ler e estudava suas preferências antes de enviar um pedido de amizade com a instigante pergunta: “Gostaria de acompanhar a criação de um livro?”

Os mais curiosos, claro, não pensavam duas vezes e, quando aceitavam o convite, descobriam a história de Mary Prince, adolescente londrina que vê a própria vida tomar rumos inesperados e bastante sombrios após a queda de um meteorito destruir o Big Ben e instaurar o pânico na capital inglesa. Sempre aos poucos, talvez de forma a aguçar ainda mais a curiosidade alheia, o autor que se autodenomina Dark Writer compartilhava trechos de sua obra.

Com narrativa incrivelmente interessante e habilmente construída, o boca-a-boca moderno (Twitter) e os muitos cliques foram recrutando mais e mais admiradores. Assim nascia o DarkWriterProject, e por dois anos os fãs puderam acompanhar todo o desenvolvimento da trama, com total liberdade para opinar e dar sugestões.

"Eu conheci o projeto bem no comecinho, quando o perfil da Mary P. me mandou um tuíte com a tal pergunta, e aceitei na mesma hora. Me passaram os capítulos já escritos até então, e os li com aquele pensamento de 'tanto faz', mas conforme eu ia lendo, fui me envolvendo, entrando na história. Me apaixonei por esse mundo”, relembra a estudante de jornalismo Gabriela Orsini.

Com o passar do tempo, o projeto migrou para o Facebook, e aí a coisa toda ficou ainda maior, e a estimativa é de que mais de dez mil pessoas já tenham lido ao menos o primeiro capítulo ("A luz na estrada") do livro ainda em formação. Dado ao sucesso, Dark, com auxílio das redes sociais, formou uma equipe para ajudá-lo com ilustrações, diagramação e divulgação de seu trabalho — óbvio que sem que ninguém soubesse sua verdadeira identidade, tal qual um super-heróis das HQs.

Questionado sobre a escolha pelo anonimato, Dark responde: "Sempre fui tímido(a) e, obviamente, esse foi um dos motivos da criação do pseudônimo. Outro foi a vontade de brincar com a imaginação dos leitores. Sei que muitas vezes eles [os leitores] se prendem muito ao autor, e isso acaba vendando parte da imaginação quando se está lendo um livro. Agora se você não sabe quem escreve, se homem ou mulher, jovem ou idoso, acredito que a mente esteja mais livre para trabalhar e criar. E, principalmente em ficção, a mente precisa estar livre”.

A propósito, a máscara que o escritor usa não é uma máscara qualquer, ela foi presente de Joji Kojima, designer de jóias muitíssimo conhecido por conta de suas criações cheias de estilo e luxo, famoso por já ter confeccionado máscaras para a cantora norte-americana Lady Gaga. "Kojima soube do meu trabalho pelo Twitter e achou o jogo de personalidades por trás do projeto muito interessante, e por isso ele decidiu me apoiar. Fiquei muito feliz quando recebi a máscara, principalmente porque a peça descreve toda a identidade da minha escrita”, conta Dark.

E se Mary Prince chegou até o designer de Gaga foi graças ao apoio de uma fã de Ribeirão Preto/SP, a professora de inglês Alice Fagiolo. "Eu fiz parte da equipe de tradutores de um dos fãs clubes mais antigos de Harry Potter no Brasil, o Oclumência. Dark ficou sabendo do meu trabalho, se interessou por ele e me convidou a conhecer a história de Mary. O projeto já tinha vários admiradores brasileiros na época, e pensava-se em expandi-lo para outros países, principalmente para a Inglaterra, local onde a história se passa. Como eu estudei inglês em Cambridge, fiquei bastante empolgada com os personagens e com a história apocalíptica, e logo passei a colaborar como tradutora”, explica. Mas eu já volto a este ponto, pois aconteceu algo muito louco.

Continuando…

Em agosto de 2012, na Bienal do Livro de São Paulo, ao lado de Nahamut, ilustradora do projeto, com quem se comunicava por meio de mímica, Dark, em sua vestimenta pra lá de enigmática e chamativa, perambulou pelos estandes de diversas editoras brasileiras com a intenção de apresentar sua obra. Não havia quem não olhasse para os dois… Fãs e curiosos os cercavam e Nahamut traduzia em palavras os gestos do autor. Mas, mesmo com a abordagem peculiar, digna de literatura fantástica, a dupla não teve êxito. Bom, ao menos não o esperado. "Muitas pessoas se interessaram pelo projeto naquele dia, o que tornou aquela data especial, mas também foi na Bienal que o Dark e eu descobrimos o quão difícil a vida pode ser para os artistas. Mas aos entrarmos em contato com os leitores, que até então só conheciam o projeto virtualmente, ao saber que teve gente que enfrentou horas de viagem só para nos prestigiar, nós entendemos que não podíamos desistir”, lembra a ilustradora.

E é então que o universo começa a conspirar a favor! A tradução que a teacher Alice Fagiolo fez, a mesma que já circulava na internet, chegou até uma outra Alice, Alice McCall. E essa Alice morava do outro lado do Atlântico, na Inglaterra. E foi ela quem teve a brilhante ideia de tuitar para Barry Cunningham sugerindo a leitura. Cunnignham, que é um dos mais respeitados editores do mercado literário britânico — o cara foi o único a acreditar no potencial de J.K. Rowling e de seu Harry Potter —, já havia notado diversos posts de fãs do Dark Writer em um fórum da série Túneis, publicada no Reino Unido pela Chicken House, editora onde ele trabalha. E não é que a tuitada funcionou?!

Sir Barry Cunningham decidiu ver do que se tratava e, surpresa: “De imediato achei o trabalho dele realmente interessante, porém precisava de um pouco mais de organização. E então eu fiz questão de falar com ele”, conta o britânico. Comprovando que o mundo dá voltas, aquele que fora ignorado pelo mercado de livros do Brasil do nada trabalharia com o profissional que deu a chance ao maior fenômeno das sagas infantojuvenis.

"Passamos a trocar e-mails, e meses depois, em janeiro de 2013, eu estava tomando café com ele em Londres”, relembra Dark. "Foi algo tão surreal que demorou para a ficha cair. Parecia que eu estava numa espécie de sonho, e eu me lembro que ao ver o Barry descendo as escadas da cafeteria, eu simplesmente fiquei sem reação. Porque foi ele quem deu a primeira oportunidade pra J.K. Rowling, escritora que eu admiro! Então só de estar vendo ele, que fez com que Harry Potter e a Pedra Filosofal fosse publicado, foi uma sensação de outro mundo”.

Após o primeiro encontro, B. Cunningham não demorou praticamente nada para arregaçar as mangas e pôr em prática sua função de mentor. Ao todo, nove capítulos envolvendo a personagem Mary Prince foram compartilhados na rede e, a pedido seu, oito deles foram removidos. “Eu queria que a trama estivesse tão incrível quanto ela pudesse ser, e isso significava ter o livro finalizado”, justifica. E Dark confia nele: “Ele tem visão, além de ser muito simpático e interessado. É realmente um editor que ama o que faz”.

Mesmo a milhares de quilômetros de casa, o brasileiro de futuro promissor não está sozinho. Na terra da rainha, ele continua contando com o suporte de seus velhos e novos admiradores, e foi com a contribuição deles que tornou-se possível a publicação de 200 cópias em inglês de “A luz na estrada”, que foram distribuídas pelas ruas de Oxford e Londres. “O projeto não teria crescido tanto, até internacionalmente, se não fosse pelo apoio e ajuda que recebi de pessoas dos mais diferentes lugares e das mais diferentes culturas. Pessoas que me ensinaram, me guiaram, me defenderam e que, acima de tudo, me encorajaram”, reconhece.


Dark Writer distribui cópias do primeiro capítulo de seu livro em Londres graças ao apoio de seus fãs

Seres fantásticos, caos em Londres e aroma de best-seller no ar

No tão aguardado livro — ou será que podemos dizer saga?! —, Dark Writer narra a aventura de uma garota de 16 anos que durante um ano de acontecimentos estranhos em todo o planeta se vê obrigada a acompanhar a família em uma viagem de verão rumo ao norte do país onde vive.

Após algumas circunstâncias imprevistas que tornam a viagem ainda mais exaustiva para ela, como o maçante engarrafamento provocado pela queda do meteorito que destruiu um dos cartões postais de Londres, uma forte luz aparece à frente de seu carro e muda sua vida por completo. O pai tenta frear, mas o veículo desliza pela pista molhada e rodopia em meio ao clarão enquanto gritos de horror rompem o silêncio.

Ao recobrar a consciência, a menina se vê em um local completamente diferente de onde estava antes e não encontra os pais em parte alguma. Em seu pescoço agora há um misterioso medalhão de prata e ela passa a ter que enfrentar monstros ao mesmo tempo em que encara seus próprios medos.

A trama, acredite ou não, é diferente de todas as distopias e literatura fantástica que há por aí — sim, eu li todos os capítulos que estiveram disponíveis, mas este é assunto para outro artigo —, portanto, a pergunta "De onde veio sua inspiração?", que é a mais clichê de todas, reconheço, precisou ser feita. E a resposta… "As histórias que me influenciam são aquelas que criei quando criança, onde eu inventava mundos alternativos. Mas o primeiro livro que li foi o Senhor dos Anéisquando tinha nove anos, e claro que a trilogia impactou minha vida, foi com ela que fui apresentado ao mundo fantástico dos livros".


Uma das ilustrações de Nahamut

É de se espantar que nem mesmo uma editora nacional tenha demonstrado interesse pelo talento de Dark Writer. Assim pensa a maioria dos leitores com quem conversei. “Acredito que ainda não perceberam que muitos livros e autores nacionais são incríveis. E por isso se atêm aos clássicos ou aos bestsellers, raramente se arriscando, em uma precaução que omite nossos escritores. O fato do livro do projeto Dark ser lançado primeiramente em Londres mostra que Barry Cunningham conseguiu enxergar o potencial ímpar de um autor brasileiro, e nossas editoras só começarão a dar atenção após o sucesso se tornar eminente”, opina a estudante Dayane Montes.

Questionado sobre o assunto, o escritor da máscara alva diz que não precisava apenas de uma casa de edição, mas de alguém que o guiasse no processo de criação, função que, ainda segundo ele, foi muito bem exercida por seus amigos e leitores, a quem é e sempre será grato. “Barry, de fato, foi o primeiro editor a demonstrar interesse no projeto, e ainda bem! Minha história está nas mãos de alguém que tenho profunda admiração. Eu precisava realmente de um mentor, de alguém que sentasse comigo e me apontasse onde eu podia melhorar, e como melhorar”.

B. Cunningham não comenta a respeito, apenas afirma que “ainda há muito trabalho pela frente” e que não tem dúvida quanto ao sucesso. “Trata-se de uma pessoa determinada, que trabalha duro. Ele é inspirador, e eu estou certo de que encontrará uma maravilhosa legião de fãs quando tudo estiver pronto”. E quanto à entrada de um autor latino-americano estreante no mercado editorial inglês, ele é otimista: "Os leitores adoram um novo talento, e ele é extraordinariamente interessante e nada, nada comum”.

A obra deverá debutar nas livrarias do Reino Unido em 2015, sem data definida, de acordo com o editor, e ainda não se sabe quantos volumes irão compor a série. "Eu já tinha muita coisa em mente, mas a história foi crescendo e se tornando mais e mais interessante com o tempo. E não sei quantos livros serão”, afirma Dark. Quanto ao título oficial, B. Cunningham foi claro ao dizer que "serão os fãs que irão escolhê-lo". 


Barry Cunningham brinca com a máscara do(a) escritor(a) brasileiro(a) e defini sua obra em três palavras:
“fascinante, misteriosa e excitante”

Confiante acerca do sucesso editorial, o britânico vai além e diz que adoraria ver Mary Prince ganhar vida nos cinemas. “É perfeito para um filme… Dark enxerga as coisas de uma maneira cinematográfica”.

Ao que tudo indica, o enigma da máscara chegará ao fim no dia da publicação, mas isso não é algo que preocupa o literato, aliás, nem a seu conselheiro, que não tem dúvida de que “o adereço sempre fará parte de seu charme e mistério”.

“Eu diria que meus leitores, por exemplo, já conhecem minha identidade. A minha verdadeira essência está na minha escrita, está na minha arte. Isso sou eu”, Dark Writer.


“Não sei se sou feito dos meus sonhos ou se meus sonhos são feitos de mim”, Dark Writer

Agora só resta esperar e torcer para que nada faça atrasar o lançamento. E enquanto isso, que tal curtir a página do projeto no Facebook? Basta clicar aqui! E saiba que você pode adicionar a Mary Prince na sua lista de amigos e pedir o primeiro capítulo na íntegra diretamente a ela. Ah, e não deixe de opinar sobre a pessoa por trás da máscara. Você acha que Dark é homem ou mulher, qual idade você dá para ele(a), por quê? 


Artigo
Colunista: Gabriel Castaldini
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