Para o topo

A Carreta Furacão e o redescobrimento do Brasil

Publicado em: 10/06/2016

Por Luís Feitosa

A Carreta Furacão saiu do asfalto ribeirãopretano para viralizar na rede. Em meio a postagens de conteúdo político, há vídeos de um trenzinho cujos animadores aparecem com coreografias engraçadas na sua timeline.

Lembro da minha infância nesses trenzinhos pelo centro de Ribeirão e pela avenida Saudade nas comemorações natalinas. Recordo também dos domingos à noite em frente à TV com Os Trapalhões fazendo paródia da Liga da Justiça. Era um escracho inocentemente cômico. A Carreta Furacão me remete a este humor que não ofende. São pessoas vestidas como personagens infantis que correm, dançam e pulam (às vezes em situações acrobáticas mais perigosas). Isso gera memes incontáveis que colocam os personagens da Carreta como heróis de filmes da Marvel, atração fake do Rock in Rio, em clipes de hinos do rock, em jogos para smartphone, além dos GIFs dos passinhos. A graça nesse tipo de humor é sustentada apenas por quem o faz. Não há a necessidade de ofender alguém para ser engraçado. E aí que está o grande trunfo da Carreta.

E de onde vem a graça da Carreta Furacão?

Uma das discussões do tropicalismo no final dos anos 1960 era sobre algo proposto desde a Semana de Arte Moderna em 1922: a antropofagia. Baseando-se no fato de que algumas tribos indígenas que aqui habitavam comiam os corpos de seus inimigos vencidos para de absorver as virtudes dos derrotados, a tropicália convocava os artistas para absorver e “abrasileirar” e aquilo que havia de conveniente em diferentes culturas. Involuntariamente, a comicidade dos personagens de trenzinhos está nessa espécie de antropofagia, ao importar personagens da cultura pop e inseri-los em um contexto brasileiro. Temos o Popeye dançando funk enquanto o Capitão América finge uma batucada. Um fantasiado de Homem-Aranha não consegue escalar o muro. Um cara parece estar vestido de Ben 10, mas a fantasia é tão estranha que não leva a nenhuma conclusão sobre a identidade do personagem. O mesmo acontece com a pessoa fantasiada de piu-piu: a cabeça da fantasia é pequena demais. Coincidentemente, até a música que os personagens dançam agrega ao pagode um gênero que não é original daqui: “Quero ver o som de Bob Marley sacudindo o partideiro / O reggae da jamaica no embolada”. E o Mickey tupiniquim cai no samba. No Brasil, Diseny, Marvel e tudo o que vier lá de fora viram feijoada. Ainda tem a cachaça para acompanhar. É só lembrar do Mussum interpretando o Flash tomando rapidamente sua “biritis”.

Qualquer coisa sobre a Carreta Furacão apazigua brevemente sua timeline e seu WhatsApp neste momento nefasto de discussões políticas no Brasil. As diferenças de opinião não podem nos impedir de rirmos juntos.

Então, “Siga em frente, olhe para o lado...”


Artigo
Colunista: Luís Feitosa
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